O Amor

O Amor

(Texto retirado do livro A Criança de Maria Montessori)

Na criança, o amor ainda é desprovido de contrastes: ela ama porque assimila, porque a natureza lhe ordena que assim proceda; e absorve aquilo que capta, para torná-lo parte de sua própria vida e para nutrir-se dele.

No ambiente, o objeto do amor é, em especial, o adulto; deste a criança recebe os objetos e as ajudas materiais e dele toma, com intenso amor, tudo de que necessita para sua própria formação. O adulto é para ela um ser venerável, de cujos lábios, como de uma fonte inexaurível, brotam as palavras que lhe servirão para construir a linguagem e constituirão sua orientação. As palavras do adulto agem na criança como estímulos sobrenaturais.
E o adulto, com suas ações, ensina à criança saída do nada como os homens se movem: imitá-lo significa, para a criança, ingressar na vida. As palavras e ações do adulto a encantam e fascinam até nela penetrarem como uma sugestão. Em consequência, a criança é extremamente sensível perante o adulto, até o ponto de permitir que ele viva e aja nela mesma.

O que o adulto lhe diz permanece gravado em sua mente como se um cinzel o tivesse esculpido em mármore.  Portanto, o adulto deve avaliar e pesar todas as palavras que pronuncia diante das crianças, porque estas têm sede de aprender e de acumular amor.

Diante do adulto, a criança está disposta à obediência até as raízes de seu espírito. Mas quando o adulto lhe pede que ela renuncie, em favor dele, ao comando do motor que impulsiona a criatura segundo normas e leis inalteráveis, a criança não pode obedecer. Seria como pretender fazê-la interromper, no período da dentição, o aparecimento dos dentes. Os caprichos e desobediências da criança não são outra coisa senão aspectos de um conflito vital entre o impulso criador e o amor para com o adulto que não a compreende. Quando, em lugar de encontrar obediência, depara com um capricho, o adulto deve pensar sempre nesse conflito e identificá-lo como a defesa de um gesto vital necessário ao desenvolvimento da criança que ama.

A criança ama o adulto sobre todas as coisas

À noite, quando vai deitar-se, chama a pessoa a quem ama e gostaria que esta não a deixasse. E quando vamos comer, o lactante quer ir conosco, não tanto para comer também, mas para olhar-nos, para estar perto de nós. O adulto passa junto desse amor místico sem o reconhecer — mas trate de cuidar-se: aquela criança que o ama crescerá e desaparecerá. Quem o amará como ela? Quem o chamará, à hora de ir para a cama, dizendo: “Fique comigo” — em vez de dizer com indiferença: “Boa noite”? Quem desejará, além disso, estar junto de nós à mesa, apenas para olhar-nos? Nós nos defendemos contra esse amor — e nunca tornaremos a encontrar outro igual! — e replicamos, impacientes: “Não tenho tempo, não posso, tenho mais o que fazer!”, quando, no fundo, pensamos: “É preciso corrigir as crianças; do contrário, elas nos escravizam”. Queremos libertar- nos dela para fazermos aquilo que nos agrada, para não renunciarmos à nossa comodidade.

Um terrível capricho da criança consiste em ir acordar os pais de manhã — e a babá tem por dever evitar de todas as formas tal delito, como se fosse o anjo da guarda do sono matutino dos pais.
Mas o que, senão o amor, impele a criança que mal se levantou da cama a ir procurar os pais?
Quando ela salta da cama, bem cedinho, ao nascer do sol, como devem fazer as criaturas puras, vai procurar os pais ainda adormecidos como se lhes quisesse dizer: “Aprendam a viver santamente, já amanheceu, é dia!” Não pretende fazer o papel de pedagogo; está apenas correndo para rever os entes que ama.
O quarto provavelmente ainda está escuro, bem fechado, para que a claridade do dia não incomode. A criança avança, vacilando, com o coração oprimido pelo medo do escuro, mas supera todos os temores e vai tocar carinhosamente nos pais. O pai e a mãe resmungam: “Já não lhe dissemos tantas vezes que não venha nos acordar de manhã cedo?…” E a criança replica: “Não vim acordar vocês, vim beijá-los”.
Como se dissesse: “Não queria despertá-los materialmente; desejava acordar-lhes o espírito”.

Sim, o amor da criança tem imensa importância para nós. O pai e a mãe dormem a vida inteira, tendem a adormecer sobre todas as coisas, e precisam de um novo ser que os desperte e os reanime com a energia fresca e viva que já não existe neles — um ser que se comporte diversamente deles e lhes diga todas as manhãs: “Levantem-se para uma vida nova, aprendam a viver melhor”.

Sim, viver melhor: sentir o sopro do amor.
Sem a criança, que o ajuda a renovar-se, o homem degeneraria. Se o adulto não procura renovar-se, forma-se paulatinamente em torno de seu espírito uma couraça que acaba por torná-lo insensível — e, desse modo insensato, seu coração se perderá! Isto nos traz à mente as palavras do Juízo Final, quando Cristo, dirigindo-se aos condenados, aos que nunca utilizaram os meios de renascimento encontrados durante a vida, os amaldiçoa:
— Ide, malditos, porque me encontrastes enfermo e não me curastes!
E eles respondem:
— Mas quando, Senhor, nós vos encontramos enfermo?
— Todas as vezes que encontrastes um pobre, um enfermo, era eu. Ide, malditos, porque eu estava encarcerado e não me visitastes.
— Oh, Senhor, quando estivestes num cárcere?
— Cada encarcerado era eu.
A dramática passagem do Evangelho significa que o adulto deve consolar o Cristo oculto em cada pobre, em cada condenado, em cada sofredor. Mas se a maravilhosa cena evangélica se aplicasse ao caso da criança, constataríamos que Cristo ajuda todos os homens sob a forma da criança.
— Eu vos amei, fui acordar-vos todas as manhãs e me repelistes.

Mas quando, Senhor, viestes à minha casa pela manhã para me acordardes e eu vos repeli?
— O filho de vossas vísceras que vinha despertar-vos era eu. Aquele que vos implorava que não o abandonásseis, era eu!
Insensatos! Era o Messias que vinha despertar-nos e ensinar-nos o amor! E nós pensávamos que se tratasse de um capricho infantil — e, por isso, perdemos nosso coração!

Andressa é casada e mãe! Sonhando com uma pedagogia educacional diferente da tradicional fundou a Aggu Montessori Experience onde pretende apresentar essa nova metodologia apaixonante para pais, professores e demais interessados.
Comments are closed.